§ 1. No princípio
O
gato foi reduzido a um felino. Sempre fez parte, ou ao menos foi visto, como um
animal. O que mais tarde, junto a todos os outros animais, fora alocado sob o
grande abrigo taxonômico do reino animalia.
Com o desenvolvimento da Biologia, o gato foi alojado em um filo chordata, em uma classe mammalia, de ordem carnívora, na família felidae,
de gênero felis, por fim, a espécie felis catus. Tudo vindo a ser traduzido
popularmente como gato doméstico.
Porém coisa alguma é apenas alguma coisa: há sempre um excedente transcendental
na coisa ou na própria ideia da coisa sendo já a ideia um quê deste excedente. Ora,
o gato sempre foi visto e captado por nós humanos como um animal. Houve, no
entanto, quem permitiu atribuir um excedente de significados ao gato – o tratando
como uma divindade. Aqui estamos pensando exclusivamente no Egito Antigo – que mesmo
punia até com a morte quem ousasse transportar este deus peludo do Egito a
outro lugar. Sem sabermos se da divindade foram ao bicho ou se do bicho foram à
divindade, fato é que Bastet (Bast, Ubasti, Ba-en-Aset) era uma deusa
antropomórfica – corpo de mulher, sua cabeça, a cabeça de uma gata. Deusa da
fertilidade, protetora das mulheres grávidas. Ponto alto da imagem felina
certamente na história. É preciso dizer, antes, que usamos o termo “felino” não
no sentido de discordar da Biologia, não discordamos dela, nem mesmo a
culpamos, mas apenas estamos evitando a redução de pensar o gato como apenas um
felino.
§ 2. A queda
Não
se pode atribuir a queda do gato a mero gato apenas à Biologia. Seu
aparecimento como ciência autônoma é recente – considerando-se o tempo do mundo
– apesar da existência da Taxonomia como um campo mais antigo. A Biologia precisou
e melhorou a Taxonomia, tornou-a mais detalhista e detalhada. Se se podemos tratar nestes
termos, o desaparecimento do “gato divino” no Ocidente se deve a tantos outros
milhares de fatores que aqui, na proposta de ensaios curtos, fugiria ao nosso
tempo disponível de escrita e de tempo de leitura para os nossos visitantes. É
certo que o gato, em algumas culturas, continua gozando de uma posição admirável,
como no Japão, Irã (herança da antiga cultura persa) e outros locais do
Oriente. No Ocidente, sejamos específicos, a suposta admiração ao gato deixa de
se tornar um sentimento coletivo difuso, mas sentimento coletivo específico,
isto é, compartilhado por aqueles fãs de tal bichano (palavra de origem
hebraica, é um bom termo dado que é um alargamento de sentido de um termo que
significava filhote e que se usa agora genericamente para gato), não estando
mais o gato, acreditamos, em um altar comum. É preciso ressaltar ainda o triste
estigma aplicado ao gato, o preto, mormente, na Idade Média. Ao longo de milênios,
poderíamos resumir que: tomando o mundo como a soma de duas bandas (ocidental e
oriental) é certo que o gato perdeu o posto outrora mais alto, o de divino, sendo
este posto atualmente o mais alto o de “um animal doméstico de todos o mais
livre” chegando até a outras sociedades, em um posto mais baixo, infelizmente, visto
em termos de uma variante de carne para consumo. Em suma, de divino a pet.
§ 3. O retorno de um Gato Divino
No
século XXI, é a tese que defendemos afinal, houve uma abertura para a
recuperação do gato como divindade. Porém, é preciso ressaltar alguns pontos: trata-se
de apenas um gato, mas por isso dizemos abertura, pois por meio dela pode-se
vislumbrar que o sentimento coletivo geral pode ser retomado em algum momento;
é um gato do Oriente, logo, seria justo questionar se não desvirtuaria a ideia
do texto que faz parecer situar o problema da queda como ocidental e a resposta
para isto é que, em tempos de mundo globalizado, de virtualidade, de internet,
de redes sociais, o fluxo de informação compartilhado em todos os pontos
traduz-se como uma influência cultural naquilo que chamamos duas bandas
(Ocidente e Oriente). Há alguns anos conviveu entre nós um gato que ousou
romper a tenda da classificação taxonômica, e também a marca popular de mero gato
doméstico e felpudo, para se tornar um Gato Divino. Ele morava em Hong Kong
(atualmente China) e tinha por nome, nome digno de divindade, Brother Cream
(algo como Irmão Cremoso). Brother Cream passava a maior parte do seu tempo em
uma loja num centro comercial. As pessoas vinham o visitar, deixavam presentes, oferendas, tiravam fotos com ele como se levassem a prova da existência de uma entidade, e foi até tema de reportagem da CNN e da Al Jazeera. Sua existência cotidiana demonstrada em plataformas de
redes sociais foi seguida por milhões de pessoas ao redor do planeta. O motivo do encantamento seria seu dorso
cremoso (aí a origem talvez do nome), seu felpudo peitoral alvo, seus dois
grandes olhos de íris âmbar, duas pupilas densamente negras e profundas, um
focinho absurdamente rosa e elegante? Talvez sim, mas se quisermos ir além, não devemos circunscrever sua presença divina aos seus aspectos físicos, pois, para ser um deus, é preciso muito mais que atributos carnais fantásticos: é preciso
postura, comportamento. Um deus se revela na ação. Brother Cream contemplava o
mundo como se estivesse acima deste, em paz, movimentos mínimos apenas para ir
ao pote de comida. Da cama na loja ou da cama de casa, Brother Cream observava
a todos os que o admiravam. Brother Cream faleceu no dia 24 de maio de 2020.
Sua existência foi uma inspiração para todos os gatos do mundo: a de que o
caminho para divindade talvez nunca tenha se fechado. Brother Cream reunia em
si tudo o que era preciso para se ser um deus: a ação (dele) e a admiração
perene (dos outros). Brother Cream não está na eternidade, mas é um dos pilares que a justifica.
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