quinta-feira, 9 de julho de 2020

Sobre O Retorno Dos Divinos Gatos

§ 1. No princípio


O gato foi reduzido a um felino. Sempre fez parte, ou ao menos foi visto, como um animal. O que mais tarde, junto a todos os outros animais, fora alocado sob o grande abrigo taxonômico do reino animalia. Com o desenvolvimento da Biologia, o gato foi alojado em um filo chordata, em uma classe mammalia, de ordem carnívora, na família felidae, de gênero felis, por fim, a espécie felis catus. Tudo vindo a ser traduzido popularmente como gato doméstico. Porém coisa alguma é apenas alguma coisa: há sempre um excedente transcendental na coisa ou na própria ideia da coisa sendo já a ideia um quê deste excedente. Ora, o gato sempre foi visto e captado por nós humanos como um animal. Houve, no entanto, quem permitiu atribuir um excedente de significados ao gato – o tratando como uma divindade. Aqui estamos pensando exclusivamente no Egito Antigo – que mesmo punia até com a morte quem ousasse transportar este deus peludo do Egito a outro lugar. Sem sabermos se da divindade foram ao bicho ou se do bicho foram à divindade, fato é que Bastet (Bast, Ubasti, Ba-en-Aset) era uma deusa antropomórfica – corpo de mulher, sua cabeça, a cabeça de uma gata. Deusa da fertilidade, protetora das mulheres grávidas. Ponto alto da imagem felina certamente na história. É preciso dizer, antes, que usamos o termo “felino” não no sentido de discordar da Biologia, não discordamos dela, nem mesmo a culpamos, mas apenas estamos evitando a redução de pensar o gato como apenas um felino.


§ 2. A queda


Não se pode atribuir a queda do gato a mero gato apenas à Biologia. Seu aparecimento como ciência autônoma é recente – considerando-se o tempo do mundo ­– apesar da existência da Taxonomia como um campo mais antigo. A Biologia precisou e melhorou a Taxonomia, tornou-a mais detalhista e detalhada. Se se podemos tratar nestes termos, o desaparecimento do “gato divino” no Ocidente se deve a tantos outros milhares de fatores que aqui, na proposta de ensaios curtos, fugiria ao nosso tempo disponível de escrita e de tempo de leitura para os nossos visitantes. É certo que o gato, em algumas culturas, continua gozando de uma posição admirável, como no Japão, Irã (herança da antiga cultura persa) e outros locais do Oriente. No Ocidente, sejamos específicos, a suposta admiração ao gato deixa de se tornar um sentimento coletivo difuso, mas sentimento coletivo específico, isto é, compartilhado por aqueles fãs de tal bichano (palavra de origem hebraica, é um bom termo dado que é um alargamento de sentido de um termo que significava filhote e que se usa agora genericamente para gato), não estando mais o gato, acreditamos, em um altar comum. É preciso ressaltar ainda o triste estigma aplicado ao gato, o preto, mormente, na Idade Média. Ao longo de milênios, poderíamos resumir que: tomando o mundo como a soma de duas bandas (ocidental e oriental) é certo que o gato perdeu o posto outrora mais alto, o de divino, sendo este posto atualmente o mais alto o de “um animal doméstico de todos o mais livre” chegando até a outras sociedades, em um posto mais baixo, infelizmente, visto em termos de uma variante de carne para consumo. Em suma, de divino a pet.


§ 3. O retorno de um Gato Divino


No século XXI, é a tese que defendemos afinal, houve uma abertura para a recuperação do gato como divindade. Porém, é preciso ressaltar alguns pontos: trata-se de apenas um gato, mas por isso dizemos abertura, pois por meio dela pode-se vislumbrar que o sentimento coletivo geral pode ser retomado em algum momento; é um gato do Oriente, logo, seria justo questionar se não desvirtuaria a ideia do texto que faz parecer situar o problema da queda como ocidental e a resposta para isto é que, em tempos de mundo globalizado, de virtualidade, de internet, de redes sociais, o fluxo de informação compartilhado em todos os pontos traduz-se como uma influência cultural naquilo que chamamos duas bandas (Ocidente e Oriente). Há alguns anos conviveu entre nós um gato que ousou romper a tenda da classificação taxonômica, e também a marca popular de mero gato doméstico e felpudo, para se tornar um Gato Divino. Ele morava em Hong Kong (atualmente China) e tinha por nome, nome digno de divindade, Brother Cream (algo como Irmão Cremoso). Brother Cream passava a maior parte do seu tempo em uma loja num centro comercial. As pessoas vinham o visitar, deixavam presentes, oferendas, tiravam fotos com ele como se levassem a prova da existência de uma entidade, e foi até tema de reportagem da CNN e da Al Jazeera. Sua existência cotidiana demonstrada em plataformas de redes sociais foi seguida por milhões de pessoas ao redor do planeta. O motivo do encantamento seria seu dorso cremoso (aí a origem talvez do nome), seu felpudo peitoral alvo, seus dois grandes olhos de íris âmbar, duas pupilas densamente negras e profundas, um focinho absurdamente rosa e elegante? Talvez sim, mas se quisermos ir além, não devemos circunscrever sua presença divina aos seus aspectos físicos, pois, para ser um deus, é preciso muito mais que atributos carnais fantásticos: é preciso postura, comportamento. Um deus se revela na ação. Brother Cream contemplava o mundo como se estivesse acima deste, em paz, movimentos mínimos apenas para ir ao pote de comida. Da cama na loja ou da cama de casa, Brother Cream observava a todos os que o admiravam. Brother Cream faleceu no dia 24 de maio de 2020. Sua existência foi uma inspiração para todos os gatos do mundo: a de que o caminho para divindade talvez nunca tenha se fechado. Brother Cream reunia em si tudo o que era preciso para se ser um deus: a ação (dele) e a admiração perene (dos outros). Brother Cream não está na eternidade, mas é um dos pilares que a justifica. 

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